
O estudo eletrofisiológico é o exame que mapeia a parte elétrica do coração por dentro. Enquanto o eletrocardiograma lê os sinais de fora, pela pele, e o Holter registra o dia inteiro à espera de um episódio, o estudo eletrofisiológico entra na câmara cardíaca com cateteres e provoca a arritmia de forma controlada para descobrir de onde ela nasce.
É o exame que responde à pergunta que nenhum outro responde: qual é exatamente o circuito elétrico defeituoso, e dá para eliminá-lo?
Quando é indicado
- Taquicardia recorrente em que se cogita ablação como tratamento definitivo
- Desmaio sem causa esclarecida, quando há suspeita de origem elétrica
- Síndrome de Wolff-Parkinson-White, em que existe uma via elétrica extra
- Palpitação frequente com Holter e eletrocardiograma inconclusivos
- Avaliação de risco em algumas cardiopatias, para decidir sobre desfibrilador implantável
- Flutter atrial e taquicardias supraventriculares, em que a taxa de cura por ablação é alta
Não é exame de rotina nem de triagem. Ele entra depois que os exames não invasivos já apontaram a direção. Vale entender antes os tipos de arritmia cardíaca e o que cada sintoma sugere.
Como é feito
- Preparo: jejum, suspensão de antiarrítmicos conforme orientação, porque eles mascarariam o resultado
- Acesso: anestesia local na virilha, às vezes também no pescoço. Sedação leve
- Cateteres com eletrodos são posicionados dentro do coração, guiados por raio X
- Mapeamento: registra-se a atividade elétrica ponto a ponto
- Estimulação programada: pequenos impulsos elétricos tentam desencadear a arritmia. Essa é a parte que assusta na descrição e é justamente a que dá o diagnóstico
- Se o circuito for identificado, a ablação costuma ser feita na mesma sessão
Duração de 1 a 4 horas conforme a complexidade. A pessoa fica acordada e pode sentir o coração disparar durante a estimulação, o que é esperado e controlado.
Estudo eletrofisiológico e ablação
São etapas do mesmo procedimento, e a distinção é a mesma que existe entre exame e tratamento:
| Estudo eletrofisiológico | Ablação | |
|---|---|---|
| Finalidade | mapear e diagnosticar | eliminar o circuito |
| O que faz | registra e provoca a arritmia | queima ou congela o ponto |
| Quando ocorre | primeiro | na mesma sessão, se indicado |
A ablação por radiofrequência aquece o tecido; a crioablação congela. A escolha depende da localização do foco e da proximidade de estruturas que não podem ser lesadas.
Taxa de sucesso
Em taquicardia supraventricular e em flutter atrial típico, a ablação tem taxa de cura alta e resultado duradouro, com boa parte dos pacientes deixando a medicação. Em fibrilação atrial, o procedimento é mais complexo e pode exigir mais de uma sessão.
Riscos
São baixos em serviço com volume adequado, mas existem:
- hematoma no local da punção, o mais comum
- arritmia durante a estimulação, controlada na própria sala
- bloqueio da condução exigindo marca-passo, risco maior quando o foco fica perto do sistema de condução
- perfuração cardíaca com derrame pericárdico, rara
- trombose ou embolia, rara
O risco de precisar de implante de marca-passo depois da ablação é justamente o ponto que o médico avalia antes de indicar, e vale perguntar qual é ele no seu caso.
Recuperação
- repouso deitado de 4 a 8 horas, com a perna estendida, por causa do acesso femoral
- internação em geral de uma noite
- hematoma na virilha é comum e regride em uma a duas semanas
- sem esforço, sem carregar peso e sem dirigir por cerca de 5 a 7 dias
- palpitações leves nas primeiras semanas são frequentes e não significam falha do procedimento
- retorno com exames para confirmar o resultado
Sinais para procurar atendimento
- sangramento ativo ou inchaço que cresce na virilha
- dor no peito intensa ou falta de ar
- desmaio ou quase desmaio
- febre acima de 38 graus
- palpitação sustentada que não cede
Onde se faz
Em salas de eletrofisiologia, que são setores de hemodinâmica equipados com sistema de mapeamento eletroanatômico. No Brasil, esses serviços se concentram em hospitais com habilitação de alta complexidade cardiovascular, os mesmos que reúnem cirurgia cardíaca e cardiologia intervencionista. Vale entender melhor o que é a hemodinâmica e por que essa concentração importa.
Perguntas frequentes
O que é o estudo eletrofisiológico?
É o exame que mapeia o sistema elétrico do coração por dentro, com cateteres, e provoca a arritmia de forma controlada para localizar sua origem. Quando o circuito é identificado, a ablação costuma ser feita na mesma sessão.
Estudo eletrofisiológico dói?
O procedimento é feito com anestesia local e sedação. Sente-se a picada da anestesia e, durante a estimulação, a sensação do próprio coração acelerando, que é desconfortável mas breve e controlada.
Qual a diferença para o Holter?
O Holter registra passivamente e depende de a arritmia acontecer durante o uso. O estudo eletrofisiológico provoca a arritmia de forma controlada e mostra exatamente de onde ela vem, permitindo tratá-la na mesma sessão.
Preciso parar meus remédios antes?
Antiarrítmicos costumam ser suspensos alguns dias antes, porque mascarariam o resultado. A suspensão é sempre orientada pelo médico, nunca por conta própria.
A ablação cura a arritmia?
Em taquicardia supraventricular e flutter atrial típico, a taxa de cura é alta e duradoura. Em fibrilação atrial, o resultado é bom mas pode exigir mais de uma sessão.
Quanto tempo de recuperação?
Repouso deitado de 4 a 8 horas, uma noite de internação na maioria dos casos, e restrição de esforço por cerca de 5 a 7 dias.
O que levar para a consulta
Leve todos os traçados que já tiver: eletrocardiogramas antigos, Holter, e qualquer registro feito por relógio ou celular durante um episódio. Esse material orienta o mapeamento e pode encurtar bastante o procedimento. Um registro do momento da crise vale mais que qualquer descrição feita depois.
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Sobre o autor
Juliana Borges
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
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