
Hemodinâmica é o setor do hospital onde se estuda e se trata o coração por dentro dos vasos, sem abrir o tórax. É ali que se faz o cateterismo, a angioplastia com stent, o implante de marca-passo e boa parte dos procedimentos que antes exigiam cirurgia aberta.
O nome vem do estudo do movimento do sangue. Na prática, quando o médico diz "vamos para a hemodinâmica", ele está falando de uma sala específica, com equipamento de raio X em arco, onde o cardiologista intervencionista trabalha guiado por imagem em tempo real.
O que se faz numa sala de hemodinâmica
Procedimentos diagnósticos
- Cateterismo cardíaco, que filma as artérias coronárias e mede pressões dentro das câmaras do coração
- Ventriculografia, avaliando a força de contração do ventrículo esquerdo
- Estudo hemodinâmico de doenças valvares e de hipertensão pulmonar
- Biópsia endomiocárdica, em casos selecionados
Procedimentos terapêuticos
- Angioplastia com stent, que desobstrui a artéria entupida
- Implante de válvula aórtica por cateter, o TAVI, alternativa à cirurgia aberta
- Fechamento de comunicações congênitas por dispositivo, sem abrir o peito
- Valvoplastia por balão em válvulas estreitadas
- Implante de marca-passo e desfibrilador
- Ablação por cateter para tratar arritmias, em salas de eletrofisiologia
- Tratamento endovascular de aneurismas e de obstruções fora do coração
A diferença entre diagnóstico e tratamento importa: quem entende que cateterismo e angioplastia não são a mesma coisa sai da consulta sabendo o que realmente vai acontecer.
Como funciona na prática
O acesso é por uma artéria, geralmente do punho, às vezes da virilha. Com anestesia local, um introdutor é colocado no vaso e por ele passam cateteres finos, conduzidos até o coração sob visão de raio X.
O contraste iodado torna as artérias visíveis. O equipamento em arco gira ao redor do paciente para filmar de vários ângulos, porque uma obstrução pode ficar escondida numa projeção e evidente em outra.
A pessoa fica acordada, com sedação leve, e conversa com a equipe durante o exame. Não dói, porque a artéria não tem terminação nervosa de dor. O que se sente é a picada da anestesia e uma onda de calor quando o contraste é injetado.
Por que a hemodinâmica mudou a cardiologia
Até os anos 1970, artéria coronária obstruída significava cirurgia aberta com esterno serrado, ou nada. A angioplastia inaugurou uma via em que se trata a mesma doença com uma punção de poucos milímetros.
Hoje o infarto agudo tem na angioplastia primária o tratamento de escolha: quanto menor o tempo entre a chegada ao hospital e a abertura da artéria, menos músculo se perde. É por isso que a existência de serviço de hemodinâmica com plantão 24 horas define a rede de atendimento ao infarto de uma cidade inteira.
Como saber se um hospital tem hemodinâmica
No Brasil, o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde registra os serviços especializados de cada unidade. Hemodinâmica aparece como serviço de cardiologia intervencionista, e os hospitais habilitados em alta complexidade cardiovascular são os que reúnem hemodinâmica, cirurgia cardíaca e eletrofisiologia no mesmo lugar.
Essa combinação importa: se uma angioplastia se complica, ter cirurgia cardíaca no mesmo prédio muda o desfecho. É um critério objetivo na hora de escolher onde tratar, e vale conferir antes de um procedimento eletivo.
Riscos
São baixos em procedimento eletivo, num serviço com volume adequado, mas existem:
- hematoma ou sangramento no local da punção, o mais comum
- reação ao contraste iodado
- piora da função renal pelo contraste, principalmente em diabéticos e idosos
- arritmia durante o procedimento
- lesão do vaso, rara
- AVC, muito raro
O risco sobe em emergência, em idade avançada, em função cardíaca reduzida e em doença renal prévia. Vale pedir o número calculado para o seu caso em vez de usar estatística geral, e entender melhor se o cateterismo tem risco de morte.
Cuidado com o rim
O contraste é eliminado pelos rins. Quem tem creatinina alterada precisa de hidratação antes e depois, e às vezes de ajuste na quantidade de contraste. Metformina costuma ser suspensa temporariamente. Nada disso se improvisa no dia: entra no preparo.
Preparo
- Jejum conforme orientação, em geral de 6 a 8 horas
- Exames de sangue recentes, com função renal e coagulação
- Lista completa de medicações, incluindo anticoagulantes e antiagregantes
- Informar alergia a iodo ou reação prévia a contraste
- Informar possibilidade de gravidez
- Levar acompanhante, porque a sedação impede dirigir
Depois do procedimento
Pelo punho, a pulseira compressiva fica algumas horas e a pessoa costuma andar logo. Pela virilha, o repouso deitado é mais longo e a perna precisa ficar estendida. Beber bastante água nas primeiras 24 horas ajuda a eliminar o contraste, exceto quando houver restrição de líquidos.
Se houve implante de stent, a medicação antiagregante passa a ser inegociável pelo prazo definido. Interromper por conta própria é a principal causa de trombose de stent.
Perguntas frequentes
O que é hemodinâmica?
É a área da cardiologia que estuda e trata o coração e os vasos por dentro, usando cateteres guiados por imagem. Também é o nome da sala do hospital onde esses procedimentos são feitos.
Hemodinâmica e cateterismo são a mesma coisa?
Não. Hemodinâmica é o setor e a especialidade; cateterismo é um dos procedimentos realizados nela, ao lado da angioplastia, do TAVI e do implante de marca-passo.
Quem faz o procedimento?
O cardiologista intervencionista, também chamado hemodinamicista, com equipe de enfermagem e técnicos em radiologia.
Precisa internar?
Procedimento diagnóstico eletivo costuma exigir algumas horas de observação, com alta no mesmo dia ou no dia seguinte. Com angioplastia, em geral uma noite.
É perigoso fazer hemodinâmica?
Em procedimento eletivo, num serviço com volume adequado, o risco é baixo. Ele sobe em emergência e em quem tem função cardíaca ou renal comprometida.
Como encontrar um hospital com hemodinâmica?
Procure serviços com habilitação em alta complexidade cardiovascular no CNES, que é a base pública do Ministério da Saúde. São os que reúnem hemodinâmica, cirurgia cardíaca e eletrofisiologia na mesma estrutura.
O que perguntar antes
Quantos procedimentos como o meu este serviço faz por ano, existe cirurgia cardíaca no mesmo hospital caso seja necessário, qual é o meu risco calculado e qual o preparo para proteger o rim. Quatro perguntas que mudam a segurança do procedimento e que quase ninguém faz.
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Sobre o autor
Juliana Borges
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
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