A percepção da dor é moldada pela cultura, valores sociais e experiências de vida. A relação com o sofrimento varia conforme o ambiente e a classe social. Estudos mostram que a forma de expressar e tratar a dor tem raízes culturais profundas.
Cultura como molde da dor
A cultura é um conjunto de sentidos construídos coletivamente. Essa definição é do antropólogo Michel Alcoforado. Ela dá lugar no mundo e permite a convivência entre as pessoas. A cultura inventa o indivíduo, assim como o indivíduo inventa a cultura.
A forma de sentir ou ignorar a dor sofre influência direta desse contexto. O livro Antropologia da Dor, de David Le Breton, reúne estudos socioculturais sobre o tema. As pesquisas comparam a percepção da dor entre diferentes grupos.
Diferenças entre classes sociais
Trabalhadores rurais costumam ter relação espartana com o corpo. A resistência ao desconforto é enaltecida nesse grupo. A dor é ignorada e resistida. Quem suporta mais é considerado valente e bom trabalhador. A busca por ajuda ocorre apenas quando a doença paralisa.
Nas classes médias e privilegiadas, a relação é outra. Há maior vigilância e atenção aos conselhos médicos. Os sintomas são vistos como alerta para cuidar e prevenir. A população mais pobre, por outro lado, é ensinada a ignorar os sintomas e seguir em frente.
Essa diferença reflete no atendimento de saúde. Profissionais tendem a minimizar o sofrimento dos mais pobres. A ideia cultural de que o pobre aguenta mais dor influencia o tratamento. Pessoas de classes altas recebem mais atenção e incentivo ao cuidado.
Dimensão social do sofrimento
O ambiente social altera a manifestação da dor. Em local com pessoas desconhecidas, o desconforto é disfarçado. Em ambiente acolhedor, a pessoa chora, grita e pede ajuda. A sociedade, as relações humanas e as políticas públicas influenciam a percepção da dor.
Dois indivíduos com a mesma idade, gênero e intensidade de dor podem lidar de formas distintas. A diferença está nas condições sociais em que vivem. A história de vida e os aspectos culturais moldam o nível de sofrimento e o tipo de tratamento recebido.
Quem sofre com dor muitas vezes é visto como frágil ou sem força de vontade. O problema está na falta de conhecimento das pessoas ao redor. A dor é subjetiva e individual. As causas da dor crônica são multifatoriais.
O tratamento deve ser multimodal, com diferentes especialidades da saúde. Como as causas são biopsicossociais, cuidar da dor também é um ato social e cultural. A análise é da cinesiologista Mariana Schamas-Esposel, pós-graduada em Dor e coordenadora do curso Dor e Movimento do HCX-USP.

