One Health e os Desafios da Saúde Pública no Brasil
Um grupo de sete autores publicou um ensaio intitulado “One Health como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da Saúde Coletiva”. O texto busca resgatar a história da abordagem “One Health”, também conhecida como Saúde Única no Brasil, e avaliar seus impactos nas políticas de saúde do país. Os autores são Lia Giraldo da Silva Augusto, Heleno Rodrigues Corrêa Filho, Carlos Fidelis Ponte, Anamaria Testa Tambellini, Marcelo Firpo Porto, Karen Friedrich e Ana Maria Costa.
Conceito e Relevância da One Health
A abordagem “One Health” decompõe a saúde em três domínios: humana, animal e ambiental, com foco na interação entre os três. Contudo, os autores alertam que essa visão simplifica a complexidade dos desafios atuais. Eles argumentam que problemas de saúde não podem ser reduzidos apenas à relação entre agentes patogênicos, hospedeiros e ambiente. Na verdade, fenômenos como a degradação ambiental, desigualdades sociais e precariedade do trabalho são fatores que merecem atenção especial.
Os autores destacam que o uso da abordagem “One Health” no Brasil surge em um momento de vulnerabilidade das políticas públicas de saúde e pode resultar em retrocessos, especialmente se ignorar os avanços conquistados pela Saúde Coletiva.
A Influência dos EUA e as Decisões Governamentais
Desde a década de 2000, o conceito “One Health” ganhou destaque, principalmente após a pandemia de Covid-19, que impulsionou sua adoção como uma estratégia de governança global. Em 2023, o governo brasileiro formalizou essa abordagem, o que gerou preocupação entre especialistas em saúde pública, especialmente no que se refere ao histórico de formulações de saúde no país.
Os autores alertam que as decisões relacionadas à “One Health” foram tomadas sem a participação adequada de entidades que tradicionalmente contribuem para as políticas públicas de saúde no Brasil. Iniciativas como a criação do Dia Nacional da Saúde Única e a formação de comissões sem a inclusão de conselhos nacionais preocupam os especialistas, que veem nisso uma exclusão de vozes fundamentais.
Implicações das Políticas de Saúde
Redefinir o paradigma de saúde a partir da “One Health” pode provocar desconexões com a realidade brasileira. O Sistema Único de Saúde (SUS), que é reconhecido mundialmente por suas diretrizes de acesso universal e integral à saúde, pode ser comprometido se a abordagem “One Health” não for integrada adequadamente. A História da Saúde Coletiva no país é pautada por um trabalho crítico que analisa as desigualdades e os determinantes sociais da saúde, algo que a abordagem “One Health” pode não considerar.
Os autores indicam que a saúde pública deve se apropriar das vozes e das necessidades locais, respeitando as especificidades culturais e sociais do Brasil. Para isso, eles propõem um debate aberto e transparente sobre as implicações da “One Health” e sua adequação na realidade brasileira, especialmente considerando o SUS.
Desafios e Oportunidades
Os desdobramentos da implementação da “One Health” no Brasil precisam ser acompanhados de perto. Questões relacionadas à segurança alimentar, respeito ao meio ambiente e saúde pública devem ser discutidas de forma multidisciplinar e intersetorial. Além disso, é fundamental que os responsáveis pela formulação de políticas de saúde adotem uma postura crítica em relação a influências externas que podem não estar alinhadas com as necessidades nacionais.
Em última análise, o desafio é encontrar um equilíbrio entre a integração de novas abordagens internacionais e a preservação dos avanços conquistados em saúde pública no Brasil.
