
O infarto clássico dos filmes, dor esmagadora no peito e a pessoa caindo, existe. Mas ele é só uma das apresentações. Uma parte importante dos infartos, principalmente em mulheres, idosos e diabéticos, se manifesta de forma que não parece coisa de coração, e é por isso que essas pessoas chegam ao hospital mais tarde.
Chegar tarde é o que decide o desfecho. Músculo cardíaco que fica sem sangue morre, e o que morre não volta. Este texto reúne os sintomas nas duas apresentações, o que fazer nos primeiros minutos e o que não fazer.
O que acontece num infarto
Uma placa de gordura na parede de uma artéria coronária se rompe. O corpo responde formando um coágulo sobre a ruptura, e esse coágulo bloqueia o fluxo. A região do músculo que dependia daquela artéria começa a morrer em minutos.
Daí a expressão que os cardiologistas repetem: tempo é músculo. Cada minuto sem desobstruir custa tecido que não se recupera.
Sintomas clássicos
- Dor ou aperto no centro do peito, descrita como peso, pressão ou aperto, não como pontada. Dura mais de 20 minutos e não melhora com repouso.
- Irradiação para braço esquerdo, ombro, mandíbula, pescoço, costas ou boca do estômago.
- Suor frio abundante.
- Náusea e vômito.
- Falta de ar.
- Palidez e sensação de morte iminente.
Como costuma se apresentar em mulheres
A dor no peito continua sendo o sintoma mais comum também nelas. O que muda é a frequência dos sintomas associados, que são mais presentes e às vezes dominam o quadro:
- falta de ar desproporcional
- cansaço extremo e súbito, às vezes por dias antes
- náusea, vômito e queimação, confundidos com problema digestivo
- dor nas costas, entre as escápulas
- dor na mandíbula ou no pescoço
- tontura e sudorese
- ansiedade intensa sem motivo
Dois fatores agravam o atraso: a percepção equivocada de que infarto é doença de homem, e a tendência de atribuir o quadro a estresse, refluxo ou crise de ansiedade. Vale saber diferenciar ansiedade acelera o coração de sintoma cardíaco, porque a confusão entre os dois custa tempo.
Infarto silencioso
Existe e não é raro. Ocorre sem dor característica, principalmente em:
- Diabéticos, pela neuropatia que reduz a percepção da dor
- Idosos, em que o quadro pode ser só confusão mental, queda ou fraqueza súbita
- Pessoas com doença renal crônica
- Quem já passou por cirurgia cardíaca
Nesses grupos, qualquer mal-estar súbito e inexplicado, sobretudo com sudorese ou falta de ar, merece eletrocardiograma.
O que fazer nos primeiros minutos
- Chame o SAMU pelo 192 ou vá imediatamente ao pronto-socorro mais próximo com atendimento cardiológico.
- Não dirija. Se perder a consciência ao volante, o problema deixa de ser só seu.
- Sente ou deite em posição confortável e afrouxe a roupa.
- Mastigue aspirina se você não for alérgico e não houver contraindicação. A recomendação padrão é 300 mg mastigados, porque mastigar acelera a absorção. Em caso de dúvida, aguarde a orientação do 192.
- Se a pessoa desmaiar e não respirar normalmente, inicie compressões torácicas no centro do peito, rápidas e firmes, sem parar, até a chegada do socorro.
O que não fazer
- esperar para ver se melhora
- tomar remédio para gases, antiácido ou analgésico e voltar a dormir
- dirigir até o hospital
- tomar medicação de outra pessoa, principalmente vasodilatador sublingual sem prescrição
Como o diagnóstico é feito
O eletrocardiograma deve ser realizado nos primeiros dez minutos da chegada. Ele separa os dois grandes cenários e define a urgência do desobstruir. Junto entram os marcadores de lesão no sangue, especialmente a troponina, dosada em série.
Conforme o resultado, segue-se para o cateterismo, que localiza a obstrução e permite tratá-la no mesmo procedimento com angioplastia e stent. Quando o serviço não tem hemodinâmica disponível a tempo, usa-se trombolítico.
Quem está em maior risco
- tabagismo, o fator evitável de maior peso
- pressão alta não controlada
- colesterol LDL elevado
- diabetes
- obesidade abdominal e sedentarismo
- histórico familiar de evento precoce, antes dos 55 anos em homens e dos 65 em mulheres
- uso de cocaína e outros estimulantes, que provocam infarto em artéria saudável
Nas mulheres entram ainda pré-eclâmpsia e diabetes gestacional prévios, e doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide.
Depois do infarto
O tratamento continua por toda a vida e reduz muito a chance de um segundo evento: antiagregante plaquetário, estatina em dose alta, betabloqueador e inibidor do sistema renina-angiotensina, conforme o caso. Some-se a reabilitação cardiovascular supervisionada, que reduz internações e melhora a capacidade funcional. Parar de fumar é a medida isolada de maior impacto.
Se a área infartada foi extensa, o coração pode se remodelar e evoluir para insuficiência cardíaca, o que torna o acompanhamento ainda mais importante.
Perguntas frequentes
Dá para ter infarto sem dor no peito?
Sim. É mais frequente em diabéticos, idosos e mulheres, e se manifesta como falta de ar, cansaço extremo, náusea ou confusão mental.
Quanto tempo dura a dor do infarto?
Costuma passar de 20 minutos e não melhora com repouso. Dor que dura segundos, ou que muda com a respiração e com a posição do corpo, tem outras causas mais prováveis, mas isso não substitui avaliação.
Infarto e ataque cardíaco são a mesma coisa?
Sim, são nomes populares para o mesmo evento. Parada cardíaca é outra coisa: o coração para de bombear, e pode ser consequência de um infarto.
Como diferenciar de azia ou gases?
Não dá para diferenciar com segurança em casa, e essa é justamente a armadilha. Queimação que vem com suor frio, falta de ar ou irradiação para o braço deve ser tratada como infarto até prova em contrário.
Pessoa jovem pode infartar?
Pode. Uso de cocaína, doenças genéticas do colesterol, tabagismo pesado e algumas doenças autoimunes explicam boa parte dos casos abaixo dos 40 anos.
Quem já infartou pode voltar a se exercitar?
Deve, dentro de um programa de reabilitação. O repouso prolongado piora o prognóstico.
Uma frase para guardar
Diante de dor no peito com suor frio, falta de ar ou irradiação, a decisão certa é sempre a mesma: ligar 192. O custo de ir ao hospital e descobrir que não era infarto é uma tarde perdida. O custo de esperar em casa é irreversível.
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Sobre o autor
Juliana Moraes
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
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