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Drogas que afetam o coração: infarto, arritmia e AVC

Por que a cocaína causa infarto em artéria saudável, o que cada substância faz com o coração, os sinais de emergência e por que informar o uso é decisivo.

Juliana Moraes7 min de leitura
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Infarto em pessoa jovem, sem colesterol alto, sem pressão alta e sem histórico familiar, tem uma causa que precisa ser sempre considerada: uso de droga estimulante. A cocaína é a droga que mais causa infarto nesse quadro, mas anfetaminas, ecstasy e mesmo o uso pesado de energéticos entram na mesma lógica.

Este texto explica o que cada substância faz com o coração, como reconhecer uma emergência e por que a conduta médica muda quando há uso de estimulante.

Cocaína: por que provoca infarto em artéria saudável

A cocaína age por três mecanismos que se somam e que, juntos, criam o cenário perfeito para um infarto:

  • Aumento abrupto da demanda. Frequência cardíaca e pressão arterial sobem de forma acentuada em minutos, e o coração passa a precisar de muito mais oxigênio.
  • Espasmo das coronárias. Ao mesmo tempo, as artérias que irrigam o coração se contraem, reduzindo a oferta. Demanda alta com oferta baixa é a definição de isquemia.
  • Aumento da coagulação. A cocaína ativa plaquetas e favorece a formação de trombo.

É por isso que o infarto por cocaína acontece com frequência em pessoas de 20 a 40 anos e com artérias sem placas relevantes. O risco é maior na primeira hora após o uso, mas permanece elevado por até 24 horas.

Outras consequências cardíacas da cocaína

  • arritmias graves, incluindo fibrilação ventricular
  • dissecção da aorta, pelo pico hipertensivo
  • cardiomiopatia com dilatação e queda de força, no uso crônico
  • endocardite, quando há uso injetável
  • AVC isquêmico e hemorrágico

As demais substâncias

Anfetaminas e metanfetamina

Efeito estimulante mais prolongado que o da cocaína. Associadas a hipertensão pulmonar, cardiomiopatia e arritmias. O uso crônico produz um quadro de insuficiência cardíaca que pode melhorar de forma expressiva com a interrupção.

Ecstasy e MDMA

Além do efeito estimulante, causa hipertermia e desidratação, principalmente quando usado em ambientes quentes com esforço físico prolongado. A combinação de temperatura elevada, perda de sódio e taquicardia é particularmente perigosa.

Álcool

A droga de maior impacto populacional, justamente por ser legal e onipresente. Consumo elevado e sustentado causa cardiomiopatia alcoólica, e episódios de consumo intenso desencadeiam fibrilação atrial, fenômeno tão conhecido que ganhou nome próprio na literatura, síndrome do coração de feriado.

Tabaco e cigarro eletrônico

O tabaco é o fator de risco cardiovascular evitável mais importante. A nicotina eleva frequência e pressão, e os demais componentes aceleram a aterosclerose. Os dispositivos eletrônicos não são inócuos: aumentam frequência cardíaca, rigidez arterial e ativação plaquetária.

Maconha

Provoca aumento transitório da frequência cardíaca e queda postural da pressão. Existe associação, na literatura, entre uso e eventos cardiovasculares na hora seguinte ao consumo, sobretudo em quem já tem doença coronariana.

Esteroides anabolizantes

Frequentemente esquecidos nessa lista. Elevam pressão, reduzem HDL, promovem hipertrofia do coração patológica do ventrículo esquerdo e aumentam risco de trombose e morte súbita.

Energéticos em excesso

Doses altas de cafeína, sobretudo combinadas com álcool ou exercício intenso, podem desencadear arritmia em pessoas predispostas.

Sinais de emergência

Procure atendimento imediato, ou chame o SAMU pelo 192, diante de:

  • dor ou aperto no peito, principalmente com irradiação para braço, mandíbula ou costas
  • falta de ar intensa
  • batimento muito acelerado que não cede
  • desmaio ou quase desmaio
  • confusão mental, agitação extrema ou convulsão
  • temperatura corporal muito elevada com pele quente e seca
  • suor frio com náusea e palidez

O que informar à equipe

Este é o ponto mais importante deste texto: informe qual substância foi usada, quanto e há quanto tempo. Não é questão moral, é questão técnica.

No infarto associado à cocaína, o tratamento muda: betabloqueadores, medicação padrão em muitos casos de dor torácica, podem piorar o espasmo coronariano nesse contexto e são evitados na fase aguda. A equipe precisa saber para escolher a conduta certa. Omitir a informação pode custar caro.

O que é reversível

Boa parte do dano é. A cardiomiopatia induzida por álcool ou por estimulantes frequentemente apresenta recuperação significativa da função cardíaca com a interrupção do uso, associada ao tratamento medicamentoso adequado.

Já a área de músculo perdida num infarto não volta. Por isso o momento de agir é antes, e não depois do primeiro evento.

Interromper o uso é tratamento cardiológico

Faz pouco sentido tratar a arritmia e o infarto e deixar a causa intacta. A abordagem da dependência é parte do tratamento cardiovascular, não um assunto paralelo.

Os caminhos disponíveis incluem os CAPS AD na rede pública, ambulatórios especializados em hospitais universitários, grupos de mútua ajuda e tratamento residencial. Para quem já tentou interromper sozinho sem sucesso, ou para quem apresenta sintomas físicos de abstinência, uma clínica de recuperação com suporte médico oferece a retirada assistida, que é a forma mais segura de fazer essa transição, principalmente quando há álcool envolvido, onde a abstinência pode ser grave.

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas de infarto por cocaína?

São os mesmos de qualquer infarto: dor ou aperto no peito, falta de ar, suor frio, náusea, dor irradiando para braço ou mandíbula. Costumam aparecer na primeira hora após o uso, mas podem surgir mais tarde.

Uso ocasional é perigoso?

Sim. O infarto associado à cocaína pode ocorrer no primeiro uso, e não depende de tempo de consumo nem de quantidade acumulada.

Quanto tempo o risco permanece após o uso?

É maior na primeira hora, permanece elevado nas primeiras 24 horas e diminui progressivamente depois disso.

Quais são os sinais de overdose?

Agitação intensa ou rebaixamento de consciência, temperatura muito elevada, batimento acelerado, dor no peito, convulsão, respiração irregular e pele fria e úmida. Qualquer um deles exige o 192.

O coração se recupera depois de parar?

Em boa parte dos casos, sim, quando o dano é de disfunção do músculo e não de área infartada. A recuperação costuma ocorrer ao longo de meses de abstinência com tratamento.

Cigarro eletrônico é mais seguro para o coração?

Não há segurança demonstrada. Os dispositivos elevam frequência cardíaca e rigidez arterial, e o uso combinado com cigarro convencional é o pior cenário.

O ponto essencial

Dor no peito após uso de estimulante nunca deve ser observada em casa. Vá ao pronto-socorro, informe o que foi usado e deixe a equipe decidir. A franqueza nessa hora é o que permite o tratamento correto, e ela não gera consequência legal para o paciente.

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Sobre o autor

Juliana Moraes

Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.

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