Estudo liderado por brasileiro aponta um ponto cego na depressão. A dor crônica pode estar por trás de casos considerados de difícil tratamento. A análise foi publicada no periódico Nature Mental Health.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 5,7% da população adulta mundial tem depressão. São cerca de 330 milhões de pessoas. Para a maioria, psicoterapia e antidepressivos funcionam. Mas ao menos 30% não respondem aos medicamentos tradicionais.
Na psiquiatria, isso é chamado de depressão resistente ao tratamento (DRT). O quadro é classificado assim quando dois antidepressivos falham em dose e tempo adequados. A dor física crônica pode ser um fator negligenciado. Ela atinge mais da metade dos pacientes com DRT.
A prevalência de dor crônica entre esses pacientes varia de 53,8% a 65%, segundo o estudo. Os pesquisadores sugerem que os desconfortos físicos podem explicar o insucesso dos remédios. O autor principal, Nilson Nogueira Mendes Neto, é médico especialista em dor. Ele afirma que a relação raramente é levada em conta.
Mendes Neto diz que pelo menos metade dos pacientes psiquiátricos têm dor crônica. E metade dos pacientes com dor crônica desenvolvem transtornos psiquiátricos. Para ele, a falta de resposta ao tratamento nem sempre se resolve com troca de medicação. A dor pode ser uma variável clínica nunca medida.
Pessoas com depressão e dor persistente demoram mais para se recuperar. Elas têm maior comprometimento da rotina e maior risco de cronificação. As dores mais frequentes são articulares (37,8%) e nas costas (28,4%). A dor reduz a adesão ao tratamento e prejudica a estabilização do humor.
Medicamentos como sertralina e escitalopram têm benefícios mais discretos nesses casos. Estratégias que tratam a depressão e a dor produzem melhorias adicionais no humor. A fibromialgia é um exemplo dessa relação. Ela compartilha mecanismos semelhantes com a depressão no sistema nervoso central.
A dor contínua altera redes de comunicação do cérebro. Ela afeta o controle das emoções, a atenção e a percepção do corpo. O medo de se mover e a sensação de que o pior vai acontecer alimentam os sintomas depressivos. Remédios padrão, que atuam na serotonina, não alcançam as rotas da dor diretamente.
Os autores propõem três mudanças. Incluir o rastreamento da dor na avaliação de pacientes com DRT. Considerar a dor na escolha de participantes de pesquisas. E incorporar fatores da dor aos modelos de classificação da gravidade da depressão resistente. O rastreamento deve começar na atenção primária com perguntas simples.

