Doenças

Colesterol alto: sintomas, riscos e tratamento

Colesterol alto não dá sintoma e o valor de referência do laudo não serve para todos. Veja qual é a sua meta de LDL, o que eleva o colesterol e como tratar.

Juliana Borges7 min de leitura
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Colesterol alto não dá sintoma. Essa é a informação mais importante e a menos difundida. Não causa dor de cabeça, não causa cansaço, não deixa a nuca pesada. A pessoa descobre por exame de sangue ou descobre no infarto, e não existe caminho do meio.

É por isso que a medida periódica importa tanto: o colesterol é um dos poucos fatores de risco cardiovascular que se corrige bem, desde que alguém saiba que ele está alterado.

O que o exame mede

O laudo traz quatro números, e eles não têm o mesmo peso.

FraçãoO que éPapel no risco
LDLleva colesterol do fígado para os tecidosé o que forma a placa. É o número que importa
HDLrecolhe o excesso e devolve ao fígadoprotetor, mas elevá-lo com remédio não reduziu eventos
Triglicerídeosgordura circulante ligada a açúcar e álcoolalto se associa a resistência à insulina
Colesterol totalsoma das fraçõespouco útil isolado

Existe ainda o não HDL, que é o total menos o HDL, e a lipoproteína(a), determinada geneticamente e que vale medir ao menos uma vez na vida em quem tem histórico familiar de evento precoce.

Qual é o meu valor ideal de LDL

Aqui está o erro mais comum na leitura do exame: não existe um valor de referência único. A meta depende do risco individual, e o laboratório não sabe qual é o seu.

  • Risco baixo: meta em torno de 130 mg/dL
  • Risco intermediário: em torno de 100
  • Risco alto: em torno de 70
  • Risco muito alto, quem já infartou, já colocou stent ou fez revascularização: abaixo de 50, e quanto menor melhor

Duas pessoas com LDL de 120 podem receber condutas opostas: uma sai sem medicação, a outra sai com estatina de alta potência. O que separa as duas é o risco calculado, não o número isolado.

Como a placa se forma

O LDL em excesso atravessa a parede da artéria e fica retido. Ele oxida, o sistema imune reage, e forma-se um acúmulo de gordura e células inflamatórias sob a superfície do vaso. Essa é a placa aterosclerótica.

Ela cresce por décadas em silêncio. O problema surge de duas formas: o estreitamento progressivo, que causa angina ao esforço, e a ruptura súbita da placa, que forma um coágulo e bloqueia o fluxo de uma hora para outra. Esse segundo mecanismo é o do infarto, e vale entender os sintomas de infarto em homens e mulheres, porque ele não avisa.

Um detalhe que surpreende: a placa que rompe raramente é a maior. Placas menores e inflamadas rompem com mais facilidade que as grandes e calcificadas. É por isso que "a artéria estava só 40% entupida" não protege ninguém.

O que eleva o colesterol

  • Genética. A hipercolesterolemia familiar atinge cerca de 1 em cada 250 pessoas e causa LDL muito alto desde a infância. É subdiagnosticada.
  • Gordura saturada e trans na alimentação.
  • Sedentarismo, que reduz o HDL.
  • Obesidade abdominal.
  • Diabetes e resistência à insulina.
  • Hipotireoidismo, causa reversível e frequentemente esquecida.
  • Doença renal crônica.
  • Álcool, principalmente sobre os triglicerídeos.
  • Medicações, como corticoides e alguns antirretrovirais.

Vale corrigir um mito persistente: o colesterol da alimentação, como o do ovo, influencia bem menos o LDL do que se acreditava. O que mais pesa é a gordura saturada e o perfil metabólico da pessoa.

Tratamento

Mudança de hábito

Reduz o LDL entre 10% e 20% na maioria das pessoas. Vale sempre, e às vezes basta:

  • trocar gordura saturada por azeite, oleaginosas, abacate e peixe
  • aumentar fibras solúveis: aveia, feijão, lentilha, frutas com casca
  • exercício aeróbico regular, que age principalmente sobre triglicerídeos e HDL
  • perder peso, com efeito somado sobre pressão e glicemia. Vale ver quanto emagrecer baixa a pressão
  • parar de fumar, que eleva o HDL além de todo o resto

Estatinas

São a base do tratamento medicamentoso e a classe com maior evidência de redução de infarto, AVC e mortalidade. Reduzem o LDL entre 30% e 55% conforme a potência e a dose.

Sobre a dor muscular, queixa que faz muita gente abandonar o tratamento: ela existe, mas estudos em que nem o paciente nem o médico sabiam o que estava sendo tomado mostraram frequência semelhante entre estatina e placebo em boa parte dos casos. Antes de abandonar, vale trocar de estatina, ajustar a dose ou testar dias alternados, sempre com o médico.

Outras opções

  • Ezetimiba, que reduz a absorção intestinal e soma efeito à estatina.
  • Inibidores de PCSK9, injetáveis, para quem não atinge a meta ou não tolera estatina.
  • Ácido bempedoico, alternativa em intolerância muscular.

Quando repetir o exame

  • adultos sem fator de risco: a cada um ou dois anos
  • em tratamento: entre 6 e 12 semanas após iniciar ou ajustar dose, depois a cada 6 a 12 meses
  • crianças com histórico familiar de colesterol muito alto ou de evento precoce: avaliação a partir dos 2 anos, conforme orientação pediátrica

O perfil lipídico faz parte do check-up cardiológico, junto com pressão, glicemia e eletrocardiograma.

Perguntas frequentes

Colesterol alto dá sintoma?

Não. Só se manifesta quando já causou complicação, como angina, infarto ou AVC. Em casos genéticos graves podem aparecer depósitos de gordura na pele e nos tendões, e um arco esbranquiçado ao redor da íris antes dos 45 anos.

Dá para baixar o colesterol só com dieta?

Em quem tem risco baixo e elevação discreta, muitas vezes sim. Em quem tem risco alto ou origem genética, a mudança de hábito ajuda mas raramente é suficiente.

Preciso tomar estatina para sempre?

Na maioria dos casos, sim. Ao suspender, o LDL volta aos valores anteriores em poucas semanas e o benefício acumulado se perde.

Estatina faz mal ao fígado?

Elevação relevante de enzimas hepáticas é rara. O controle laboratorial é feito conforme orientação médica, e lesão hepática grave é excepcional.

Ovo aumenta o colesterol?

O impacto é bem menor do que se acreditava. Para a maioria das pessoas o ovo cabe na rotina, e é uma das melhores fontes de proteína disponíveis.

Colesterol baixo demais faz mal?

Nos estudos com redução intensiva, valores muito baixos de LDL não se associaram a dano relevante, e o benefício cardiovascular se manteve. Quanto menor o LDL, menor o risco de evento.

O que fazer com o seu resultado

Não compare o seu LDL com o valor de referência impresso no laudo. Leve o exame ao médico e pergunte qual é a sua meta, calculada a partir do seu risco. É essa pergunta que transforma um número em conduta.

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Sobre o autor

Juliana Borges

Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.

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