
Cirurgia cardíaca é o nome que reúne procedimentos bem diferentes entre si: da ponte de safena à troca de válvula, do reparo de um defeito de nascença ao implante de marcapasso. O que eles têm em comum é o objetivo, restabelecer o funcionamento do coração quando remédio e mudança de hábito já não dão conta.
Este guia reúne o que a maioria das pessoas procura saber antes de assinar o termo de consentimento: quais são os tipos, o que determina o risco, quanto tempo leva a recuperação e como se organizar do lado prático, que é a parte de que ninguém fala na consulta.
Quais são os principais tipos de cirurgia cardíaca
Os procedimentos mais realizados no Brasil se concentram em cinco grupos.
Revascularização do miocárdio (ponte de safena ou mamária)
É a cirurgia indicada quando as artérias coronárias, responsáveis por irrigar o próprio músculo do coração, estão obstruídas por placas de gordura. O cirurgião cria um caminho alternativo usando um vaso retirado da perna (safena) ou do tórax (mamária). É a cirurgia cardíaca mais comum em adultos acima dos 60 anos.
Troca ou reparo de válvula
As válvulas funcionam como portas que garantem o sentido do fluxo de sangue. Quando uma delas endurece (estenose) ou deixa de fechar direito (insuficiência), o coração passa a trabalhar em sobrecarga. A cirurgia pode reparar a válvula original ou substituí-la por uma prótese mecânica ou biológica.
Correção de cardiopatia congênita
São defeitos presentes desde o nascimento, como comunicação entre as cavidades do coração, o popular furo. Em muitos casos a correção é feita ainda nos primeiros meses de vida.
Implante de marcapasso e desfibrilador
Indicado quando o problema é elétrico, não mecânico: o coração bate devagar demais, rápido demais ou de forma irregular. O procedimento é bem menos invasivo que as cirurgias abertas.
Cirurgia da aorta
Trata dilatações (aneurismas) e rasgos (dissecções) na maior artéria do corpo. É a de maior complexidade técnica do grupo.
Cirurgia cardíaca é perigosa?
Depende muito mais de quem opera e de quem é operado do que do nome do procedimento. Uma troca de válvula eletiva, em paciente de 55 anos sem outras doenças, num hospital com equipe habituada, tem risco muito diferente da mesma cirurgia feita em caráter de urgência num paciente de 80 anos com diabetes e insuficiência renal.
Os fatores que mais pesam na conta de risco são:
- Idade e outras doenças. Diabetes, doença renal crônica, doença pulmonar e obesidade elevam o risco de complicação.
- Função do coração antes da cirurgia. Quanto mais preservada a força de contração, melhor o prognóstico.
- Caráter da cirurgia. Procedimento agendado é sempre mais seguro que emergência.
- Volume do serviço. Hospitais que fazem muitas cirurgias cardíacas por ano apresentam resultados melhores. É o principal motivo para procurar um serviço com habilitação em alta complexidade cardiovascular.
Vale uma observação sobre o que se lê na internet: números gerais de mortalidade, do tipo "essa cirurgia tem 3% de risco", dizem muito pouco sobre o seu caso. O cardiologista calcula esse risco de forma individual, com escores que somam idade, função cardíaca, doenças associadas e urgência. Peça esse número na consulta.
Como é a recuperação depois de uma cirurgia do coração
Nas cirurgias abertas, em que o esterno (o osso do meio do peito) é aberto e depois fechado com fios de aço, a recuperação segue mais ou menos este roteiro.
Primeiras 48 horas
São passadas na UTI, com monitorização contínua, drenos no tórax e, nas primeiras horas, tubo de respiração. A maior parte das pessoas não guarda memória nítida desse período.
Da alta da UTI até a alta hospitalar
Em geral de três a sete dias no quarto. Nessa fase começam a fisioterapia respiratória e os primeiros passos. Dor no peito ao tossir e ao levantar da cama é esperada e controlada com medicação.
Primeiras seis semanas em casa
É o tempo que o esterno leva para consolidar. Nesse período não se dirige, não se carrega peso acima de dois a três quilos e não se apoia o corpo nos braços para levantar. A orientação de abraçar um travesseiro antes de tossir não é folclore: ela reduz de verdade a dor e protege a consolidação do osso.
Do segundo ao terceiro mês
Retomada gradual das atividades, idealmente dentro de um programa de reabilitação cardíaca supervisionada. É a fase em que a maioria volta ao trabalho, dependendo da função exercida.
Sinais de alerta na recuperação
Procure atendimento sem esperar a próxima consulta se aparecer qualquer um destes:
- febre acima de 38 graus
- vermelhidão, calor, inchaço ou secreção na cicatriz
- sensação de que o esterno "estala" ou se move ao respirar fundo
- falta de ar que piora ou inchaço rápido nas pernas
- batimento irregular acompanhado de tontura ou desmaio
A parte prática: documentos, reembolso e organização
Uma internação cardíaca gera uma quantidade de papel que surpreende quem nunca passou por isso: guias de autorização, relatório do cirurgião, notas fiscais de honorários, recibos de materiais e de próteses. Quem tem plano de saúde com reembolso, ou quem pretende deduzir despesas médicas no imposto de renda, depende desses documentos.
Duas recomendações que poupam trabalho depois:
- Fotografe tudo no mesmo dia. Guia, recibo, nota e relatório. Papel de hospital se perde com facilidade e o prazo para pedir reembolso costuma ser curto.
- Guarde as chaves de acesso das notas fiscais. Se uma nota se perder, é possível recuperá-la pelo número. Serviços de consulta como a consultardanfe explicam como fazer isso pelo código de 44 dígitos, o que evita ter que pedir segunda via ao prestador.
Vale também confirmar com antecedência o que o plano cobre em prótese e material importado, que é a fonte mais comum de conflito entre paciente e operadora em cirurgia de válvula.
Quando a cirurgia pode ser evitada
Nem toda doença cardíaca grave termina em centro cirúrgico. A cardiologia intervencionista resolve por cateter uma parte do que antes exigia abrir o tórax: angioplastia com stent para artérias obstruídas, implante de válvula aórtica por cateter em pacientes de alto risco cirúrgico, fechamento de alguns defeitos congênitos por dispositivo.
A escolha entre cateter e cirurgia aberta leva em conta a anatomia das lesões, a idade, o risco cirúrgico e a durabilidade esperada do resultado. Não existe uma opção universalmente melhor, existe a mais adequada para cada caso.
Perguntas frequentes sobre cirurgia cardíaca
Quanto tempo dura uma cirurgia cardíaca?
Entre três e seis horas na maioria dos casos, contando o preparo. Cirurgias combinadas, como revascularização mais troca de válvula, podem passar disso. O tempo de sala é sempre maior que o tempo de cirurgia propriamente dita.
A cirurgia do coração serra o osso?
Nas cirurgias abertas convencionais, sim: o esterno é dividido no meio com uma serra específica e depois fechado com fios de aço que permanecem no corpo para sempre. Existem técnicas minimamente invasivas que acessam o coração por cortes laterais menores, sem dividir o esterno, mas elas não servem para todos os procedimentos.
Quanto tempo se vive depois de uma cirurgia cardíaca?
Não existe um número único. Uma revascularização bem-sucedida em paciente que controla pressão, diabetes e colesterol e abandona o cigarro pode devolver expectativa de vida próxima à da população geral da mesma idade. O que mais influencia o resultado a longo prazo não é a cirurgia em si, é o que se faz depois dela.
É normal sentir o peito estranho meses depois?
Fisgadas, formigamento e dormência ao redor da cicatriz são comuns e podem durar meses, porque pequenos nervos da pele foram seccionados. O que não é esperado é dor em aperto, com falta de ar ou suor frio, que exige avaliação imediata.
Quando posso voltar a dirigir?
Em geral após quatro a seis semanas nas cirurgias com abertura do esterno, porque uma freada brusca ou o acionamento do airbag podem comprometer a consolidação do osso. Confirme com o seu cirurgião, o prazo muda conforme a técnica usada.
O que levar para a consulta
Chegue com essas perguntas anotadas: qual é o meu risco calculado, quantas cirurgias como a minha este serviço faz por ano, existe alternativa por cateter no meu caso, qual prótese será usada e por quê, e quanto tempo de afastamento devo planejar. Um paciente que pergunta essas coisas costuma sair da consulta com uma decisão mais firme, e com menos surpresa no caminho.
Diretório de Estabelecimentos
Encontre hospitais e clínicas de cardiologia em todo o Brasil
Mais de 13 mil hospitais e clínicas com serviço de cardiologia, a partir do CNES (Ministério da Saúde). Busque por estado, cidade ou especialidade.
Sobre o autor
Juliana Moraes
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
Ver todos os artigosEncontre a hospital ou clínica de cardiologia ideal no Brasil no nosso diretório. Explore estabelecimentos por especialidade com dados oficiais da CNES (Ministério da Saúde).



