
AVC é um evento no cérebro, mas em boa parte dos casos o problema começa no coração. Entre 20% e 30% dos AVCs isquêmicos são cardioembólicos: um coágulo se forma dentro do coração, se desprende, viaja pela circulação e entope uma artéria cerebral.
A principal fonte desses coágulos tem nome e é tratável: a fibrilação atrial. Reconhecê-la e anticoagular quem tem indicação é uma das intervenções de maior impacto na prevenção do AVC.
Como o coração produz um AVC
Fibrilação atrial
Nessa arritmia, os átrios param de contrair de forma organizada e passam a tremular. O sangue deixa de ser completamente esvaziado e fica parado numa bolsa do átrio esquerdo, o apêndice atrial. Sangue parado coagula. O coágulo formado ali pode se soltar a qualquer momento.
A fibrilação atrial aumenta o risco de AVC em cerca de cinco vezes, e os AVCs por essa causa costumam ser mais extensos e mais incapacitantes que os de outras origens. Vale entender os tipos de arritmia cardíaca, porque muita gente convive com ela sem saber.
Outras fontes cardíacas
- Infarto recente com área extensa, onde pode se formar trombo no ventrículo
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção muito reduzida
- Próteses valvares sem anticoagulação adequada
- Doença reumática da válvula mitral
- Endocardite infecciosa, em que fragmentos da vegetação se desprendem
- Forame oval patente, comunicação entre os átrios presente em cerca de um quarto da população, relevante em AVC de causa indeterminada em jovens
A via compartilhada
Há ainda um caminho indireto e mais comum: os mesmos fatores que entopem as coronárias entopem as carótidas e as artérias cerebrais. Pressão alta, colesterol elevado, diabetes e cigarro produzem aterosclerose em todo o corpo. Quem tem entupimento das veias do coração tem risco elevado de AVC pelo mesmo motivo.
Reconhecer o AVC: SAMU e o teste de 3 passos
Cada minuto sem tratamento custa cerca de 1,9 milhão de neurônios. O reconhecimento rápido é tudo.
- S de Sorriso: peça para sorrir. Um lado do rosto não acompanha?
- A de Abraço: peça para levantar os dois braços. Um cai ou não sobe?
- M de Música: peça para repetir uma frase simples. A fala está enrolada ou trocada?
- U de Urgente: qualquer um dos três alterado, ligue 192 imediatamente.
Outros sinais
- perda súbita de visão em um olho ou visão dupla
- tontura intensa com perda de equilíbrio
- dormência súbita de um lado do corpo
- dor de cabeça súbita e muito intensa, a pior da vida
- confusão mental de início abrupto
Anote o horário exato do início dos sintomas. É a informação que define se o trombolítico ainda pode ser usado, e a equipe vai perguntar antes de qualquer outra coisa.
O que não fazer
- não espere para ver se melhora
- não dê comida, água nem remédio pela boca, porque a deglutição pode estar comprometida
- não leve de carro se o SAMU puder chegar: a ambulância avisa o hospital e ativa o protocolo antes da chegada
- não dê aspirina por conta própria, porque parte dos AVCs é hemorrágica e a aspirina piora o quadro
Esse último ponto é uma diferença importante em relação ao infarto: no infarto a aspirina ajuda, no AVC ela pode agravar. Sem tomografia não dá para saber qual é qual.
Como se previne o AVC de origem cardíaca
Encontrar a fibrilação atrial
Boa parte é assintomática. Formas de detectar:
- medir o pulso e observar se o ritmo é irregular
- eletrocardiograma de rotina após os 65 anos
- Holter de 24 horas quando há palpitação ou AVC sem causa definida
- monitor prolongado em casos selecionados
- relógios e aparelhos de pressão com detecção de ritmo irregular, que servem como alerta para procurar avaliação
Anticoagular quem tem indicação
O risco é calculado por escore que considera idade, sexo, hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, doença vascular e AVC prévio. A partir de determinado ponto, o anticoagulante reduz o risco de AVC de forma expressiva.
Um esclarecimento que importa: aspirina não substitui anticoagulante na fibrilação atrial. É um erro comum e caro.
Controlar os fatores de risco
- Pressão arterial. É o fator isolado de maior peso para AVC. Vale conhecer as causas e valores da pressão alta
- Colesterol, com meta definida pelo risco individual
- Diabetes controlado
- Parar de fumar, com redução do risco já no primeiro ano
- Apneia do sono tratada
- Álcool em quantidade reduzida
- Atividade física regular
Depois de um AVC, o coração precisa ser investigado
Todo AVC isquêmico exige busca da origem: eletrocardiograma, ecocardiograma, monitorização prolongada do ritmo e ultrassom das carótidas. Em pacientes jovens com AVC sem causa aparente, investiga-se o forame oval patente, cujo fechamento por cateter é indicado em casos selecionados.
Sem identificar a origem, a prevenção do segundo evento é feita no escuro. E o risco de recorrência é maior justamente nos primeiros meses.
Perguntas frequentes
Problema no coração pode causar AVC?
Pode, e é frequente. A fibrilação atrial é a causa cardíaca mais comum, respondendo por parcela expressiva dos AVCs isquêmicos.
Estresse causa AVC?
O estresse crônico eleva a pressão arterial e piora hábitos, e por essa via aumenta o risco. Um pico agudo pode funcionar como gatilho em quem já tem doença vascular, o que é diferente de ser a causa.
Ansiedade pode causar AVC?
Não diretamente. A ansiedade produz sintomas que assustam, como formigamento e tontura, mas eles não são AVC. Sinais de assimetria facial, fraqueza de um lado e alteração da fala exigem o 192.
Quem teve AVC pode ter infarto?
Sim. As duas doenças compartilham fatores de risco, e quem teve uma tem risco elevado da outra. Por isso a prevenção após um AVC inclui avaliação cardíaca completa.
AVC dá aviso antes?
Às vezes. O ataque isquêmico transitório produz sintomas iguais aos do AVC que desaparecem em minutos ou horas. Não é alarme falso: é o aviso mais claro possível de que um AVC está próximo, e exige avaliação no mesmo dia.
Quem tem fibrilação atrial vai ter AVC?
Não necessariamente. Com anticoagulação adequada quando indicada, o risco cai muito. O problema é a fibrilação não diagnosticada ou não tratada.
O gesto mais útil desta semana
Meça o próprio pulso por um minuto, em repouso, e sinta se o intervalo entre as batidas é regular. Ensine alguém de casa a fazer o mesmo. Fibrilação atrial silenciosa é encontrada assim com frequência, e encontrá-la antes do AVC é a diferença entre um comprimido por dia e uma sequela permanente.
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Sobre o autor
Juliana Borges
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
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