Doenças

AVC e coração: qual é a relação entre eles

Boa parte dos AVCs começa no coração, com coágulo formado na fibrilação atrial. Veja como reconhecer o AVC pelo teste SAMU e como prevenir a origem cardíaca.

Juliana Borges7 min de leitura
Imagem do artigo: AVC e coração: qual é a relação entre eles
Imagem ilustrativa

AVC é um evento no cérebro, mas em boa parte dos casos o problema começa no coração. Entre 20% e 30% dos AVCs isquêmicos são cardioembólicos: um coágulo se forma dentro do coração, se desprende, viaja pela circulação e entope uma artéria cerebral.

A principal fonte desses coágulos tem nome e é tratável: a fibrilação atrial. Reconhecê-la e anticoagular quem tem indicação é uma das intervenções de maior impacto na prevenção do AVC.

Como o coração produz um AVC

Fibrilação atrial

Nessa arritmia, os átrios param de contrair de forma organizada e passam a tremular. O sangue deixa de ser completamente esvaziado e fica parado numa bolsa do átrio esquerdo, o apêndice atrial. Sangue parado coagula. O coágulo formado ali pode se soltar a qualquer momento.

A fibrilação atrial aumenta o risco de AVC em cerca de cinco vezes, e os AVCs por essa causa costumam ser mais extensos e mais incapacitantes que os de outras origens. Vale entender os tipos de arritmia cardíaca, porque muita gente convive com ela sem saber.

Outras fontes cardíacas

  • Infarto recente com área extensa, onde pode se formar trombo no ventrículo
  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção muito reduzida
  • Próteses valvares sem anticoagulação adequada
  • Doença reumática da válvula mitral
  • Endocardite infecciosa, em que fragmentos da vegetação se desprendem
  • Forame oval patente, comunicação entre os átrios presente em cerca de um quarto da população, relevante em AVC de causa indeterminada em jovens

A via compartilhada

Há ainda um caminho indireto e mais comum: os mesmos fatores que entopem as coronárias entopem as carótidas e as artérias cerebrais. Pressão alta, colesterol elevado, diabetes e cigarro produzem aterosclerose em todo o corpo. Quem tem entupimento das veias do coração tem risco elevado de AVC pelo mesmo motivo.

Reconhecer o AVC: SAMU e o teste de 3 passos

Cada minuto sem tratamento custa cerca de 1,9 milhão de neurônios. O reconhecimento rápido é tudo.

  • S de Sorriso: peça para sorrir. Um lado do rosto não acompanha?
  • A de Abraço: peça para levantar os dois braços. Um cai ou não sobe?
  • M de Música: peça para repetir uma frase simples. A fala está enrolada ou trocada?
  • U de Urgente: qualquer um dos três alterado, ligue 192 imediatamente.

Outros sinais

  • perda súbita de visão em um olho ou visão dupla
  • tontura intensa com perda de equilíbrio
  • dormência súbita de um lado do corpo
  • dor de cabeça súbita e muito intensa, a pior da vida
  • confusão mental de início abrupto

Anote o horário exato do início dos sintomas. É a informação que define se o trombolítico ainda pode ser usado, e a equipe vai perguntar antes de qualquer outra coisa.

O que não fazer

  • não espere para ver se melhora
  • não dê comida, água nem remédio pela boca, porque a deglutição pode estar comprometida
  • não leve de carro se o SAMU puder chegar: a ambulância avisa o hospital e ativa o protocolo antes da chegada
  • não dê aspirina por conta própria, porque parte dos AVCs é hemorrágica e a aspirina piora o quadro

Esse último ponto é uma diferença importante em relação ao infarto: no infarto a aspirina ajuda, no AVC ela pode agravar. Sem tomografia não dá para saber qual é qual.

Como se previne o AVC de origem cardíaca

Encontrar a fibrilação atrial

Boa parte é assintomática. Formas de detectar:

  • medir o pulso e observar se o ritmo é irregular
  • eletrocardiograma de rotina após os 65 anos
  • Holter de 24 horas quando há palpitação ou AVC sem causa definida
  • monitor prolongado em casos selecionados
  • relógios e aparelhos de pressão com detecção de ritmo irregular, que servem como alerta para procurar avaliação

Anticoagular quem tem indicação

O risco é calculado por escore que considera idade, sexo, hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, doença vascular e AVC prévio. A partir de determinado ponto, o anticoagulante reduz o risco de AVC de forma expressiva.

Um esclarecimento que importa: aspirina não substitui anticoagulante na fibrilação atrial. É um erro comum e caro.

Controlar os fatores de risco

  • Pressão arterial. É o fator isolado de maior peso para AVC. Vale conhecer as causas e valores da pressão alta
  • Colesterol, com meta definida pelo risco individual
  • Diabetes controlado
  • Parar de fumar, com redução do risco já no primeiro ano
  • Apneia do sono tratada
  • Álcool em quantidade reduzida
  • Atividade física regular

Depois de um AVC, o coração precisa ser investigado

Todo AVC isquêmico exige busca da origem: eletrocardiograma, ecocardiograma, monitorização prolongada do ritmo e ultrassom das carótidas. Em pacientes jovens com AVC sem causa aparente, investiga-se o forame oval patente, cujo fechamento por cateter é indicado em casos selecionados.

Sem identificar a origem, a prevenção do segundo evento é feita no escuro. E o risco de recorrência é maior justamente nos primeiros meses.

Perguntas frequentes

Problema no coração pode causar AVC?

Pode, e é frequente. A fibrilação atrial é a causa cardíaca mais comum, respondendo por parcela expressiva dos AVCs isquêmicos.

Estresse causa AVC?

O estresse crônico eleva a pressão arterial e piora hábitos, e por essa via aumenta o risco. Um pico agudo pode funcionar como gatilho em quem já tem doença vascular, o que é diferente de ser a causa.

Ansiedade pode causar AVC?

Não diretamente. A ansiedade produz sintomas que assustam, como formigamento e tontura, mas eles não são AVC. Sinais de assimetria facial, fraqueza de um lado e alteração da fala exigem o 192.

Quem teve AVC pode ter infarto?

Sim. As duas doenças compartilham fatores de risco, e quem teve uma tem risco elevado da outra. Por isso a prevenção após um AVC inclui avaliação cardíaca completa.

AVC dá aviso antes?

Às vezes. O ataque isquêmico transitório produz sintomas iguais aos do AVC que desaparecem em minutos ou horas. Não é alarme falso: é o aviso mais claro possível de que um AVC está próximo, e exige avaliação no mesmo dia.

Quem tem fibrilação atrial vai ter AVC?

Não necessariamente. Com anticoagulação adequada quando indicada, o risco cai muito. O problema é a fibrilação não diagnosticada ou não tratada.

O gesto mais útil desta semana

Meça o próprio pulso por um minuto, em repouso, e sinta se o intervalo entre as batidas é regular. Ensine alguém de casa a fazer o mesmo. Fibrilação atrial silenciosa é encontrada assim com frequência, e encontrá-la antes do AVC é a diferença entre um comprimido por dia e uma sequela permanente.

Diretório de Estabelecimentos

Encontre hospitais e clínicas de cardiologia em todo o Brasil

Mais de 13 mil hospitais e clínicas com serviço de cardiologia, a partir do CNES (Ministério da Saúde). Busque por estado, cidade ou especialidade.

JB

Sobre o autor

Juliana Borges

Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.

Ver todos os artigos

Encontre a hospital ou clínica de cardiologia ideal no Brasil no nosso diretório. Explore estabelecimentos por especialidade com dados oficiais da CNES (Ministério da Saúde).