
Pressão alta não dá sintoma na imensa maioria dos casos. Dor de cabeça, nuca pesada, tontura e sangramento nasal são atribuídos a ela o tempo todo, mas os estudos não sustentam essa associação: pessoas com pressão elevada não têm mais desses sintomas do que pessoas com pressão normal.
A hipertensão ganhou o apelido de assassina silenciosa exatamente por isso. Ela trabalha por anos sem avisar, e o primeiro sinal costuma ser o dano já instalado: infarto, AVC, insuficiência cardíaca ou doença renal.
Quais são os valores
| Classificação | Sistólica | Diastólica | |
|---|---|---|---|
| Ótima | abaixo de 120 | e | abaixo de 80 |
| Normal | 120 a 129 | e/ou | 80 a 84 |
| Pré-hipertensão | 130 a 139 | e/ou | 85 a 89 |
| Hipertensão estágio 1 | 140 a 159 | e/ou | 90 a 99 |
| Hipertensão estágio 2 | 160 a 179 | e/ou | 100 a 109 |
| Hipertensão estágio 3 | 180 ou mais | e/ou | 110 ou mais |
Uma medida isolada não fecha diagnóstico. São necessárias medidas repetidas, em dias diferentes, e idealmente a confirmação com MAPA de 24 horas ou monitorização residencial.
Como medir corretamente em casa
A medida errada é a principal fonte de diagnóstico errado, para mais e para menos.
- Fique 5 minutos em repouso antes de medir.
- Sentado, costas apoiadas, pés no chão, pernas descruzadas.
- Braço apoiado na altura do coração.
- Manguito do tamanho certo. Manguito pequeno em braço grosso superestima a pressão, e esse é um erro frequente.
- Sem café, cigarro ou exercício na meia hora anterior.
- Bexiga vazia e sem conversar durante a medida.
- Faça duas medidas com um minuto de intervalo e anote as duas.
Aparelho de braço validado é mais confiável que o de pulso.
Quando o sintoma existe de verdade
Existem situações em que a pressão alta se manifesta, e todas são graves:
- Crise hipertensiva com lesão de órgão: dor no peito, falta de ar, alteração visual, confusão mental, fraqueza de um lado do corpo, dificuldade de falar
- Dor de cabeça súbita e muito intensa, a pior da vida, que levanta suspeita de sangramento cerebral
- Sangramento nasal com pressão muito elevada, raro e não característico
Qualquer um desses exige atendimento imediato. Fora deles, pressão de 150 por 95 descoberta num aparelho de farmácia não é emergência: é motivo para consulta agendada.
O que causa
Em cerca de 90% dos casos não há causa única identificável. É a hipertensão primária, resultado de genética somada a hábitos:
- excesso de sódio, que vem sobretudo de pão, frios, queijos, caldos prontos e congelados
- excesso de peso, principalmente gordura abdominal
- sedentarismo
- álcool em quantidade elevada
- estresse crônico, com efeito real e sustentado
- sono insuficiente e apneia do sono
- envelhecimento, com enrijecimento das artérias
Quando investigar causa secundária
Nos 10% restantes há uma causa tratável por trás, e vale procurá-la quando a hipertensão aparece antes dos 30 anos, quando surge de forma abrupta, quando não responde a três medicações ou quando vem com alterações de potássio. As causas mais comuns são apneia do sono, doença renal, estenose de artéria renal, hiperaldosteronismo e alterações da tireoide.
A apneia do sono merece destaque: é a causa mais frequente de hipertensão resistente e a mais esquecida. Ronco alto com pausas na respiração é o sinal, e a relação com o coração vai além da pressão, como no infarto durante o sono.
O que a pressão alta faz ao corpo
- Coração: o músculo engrossa para vencer a resistência, e com o tempo o coração aumentado perde a capacidade de relaxar, evoluindo para insuficiência cardíaca
- Artérias: acelera a formação de placas, o caminho até infarto e AVC
- Rins: lesão progressiva dos filtros, que por sua vez piora a pressão
- Olhos: retinopatia hipertensiva, visível no exame de fundo de olho
- Cérebro: além do AVC, associação com declínio cognitivo
Tratamento
Sem medicação
- Reduzir sódio para até 2 gramas por dia. Efeito comparável ao de um medicamento em parte das pessoas.
- Perder peso. Cerca de 1 mmHg por quilo perdido em quem tem sobrepeso.
- Exercício aeróbico regular, com efeito independente da perda de peso.
- Reduzir álcool.
- Dormir bem e tratar apneia se houver.
- Aumentar potássio pela alimentação, com frutas, verduras e leguminosas, exceto em doença renal.
Com medicação
As classes de primeira linha são diuréticos tiazídicos, bloqueadores dos canais de cálcio, inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina. A tendência atual é iniciar com combinação de duas classes em dose baixa, em vez de aumentar uma só até o limite: controla mais e com menos efeito adverso.
Sobre custo, que é causa frequente de abandono: vários anti-hipertensivos são gratuitos na Farmácia Popular. Vale conhecer os caminhos de como economizar no remédio de uso contínuo antes de espaçar doses por conta própria.
Perguntas frequentes
Pressão alta dá dor de cabeça?
Na maioria das vezes não. A associação é popular mas não se confirma nos estudos. Dor de cabeça súbita e muito intensa, porém, exige atendimento imediato.
Qual pressão é considerada emergência?
O número isolado importa menos que a presença de sintomas. Valores muito elevados com dor no peito, falta de ar, alteração visual, confusão ou fraqueza de um lado do corpo são emergência. Sem sintomas, é urgência ambulatorial.
Posso parar o remédio se a pressão normalizou?
Não. Ela normalizou porque o medicamento está agindo. Suspender leva ao retorno dos valores em poucos dias.
Pressão alta tem cura?
A primária não tem cura, tem controle, que pode incluir redução de dose com mudança de hábito. As causas secundárias, quando identificadas e tratadas, podem resolver o quadro.
Aparelho de farmácia é confiável?
Serve como alerta, não como diagnóstico. Manguito único não serve a todos os braços, e a pessoa costuma medir logo após caminhar até o local.
Pressão sobe com ansiedade?
Sobe de forma transitória em situações de estresse, o que é normal. Hipertensão é a elevação sustentada, medida em repouso e em dias diferentes.
O que fazer nesta semana
Se você não mede a pressão há mais de um ano, meça. Se já tem diagnóstico, faça medidas em casa por sete dias, duas vezes ao dia, e leve os números anotados à consulta. Esse registro vale mais que qualquer medida feita no consultório, e é o que permite ajustar o tratamento com precisão.
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Sobre o autor
Juliana Borges
Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.
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