Enfermeiro é agredido dentro de UPA em São Bernardo do Campo (SP). Flávio Vieira da Veiga, de 47 anos, levou socos e chutes até desmaiar. O ataque ocorreu em maio, durante o plantão. Um homem invadiu a sala de triagem e arrastou o profissional pelo corredor. O agressor queria atendimento imediato para uma acompanhante. Veiga sofreu fratura no nariz, hematomas e ferimentos. Passou por cirurgia corretiva e ficou internado.
O caso reflete um cenário alarmante no estado. Pesquisa do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) mostra que 80% dos profissionais da área já sofreram agressão no trabalho. O levantamento de 2025 ouviu mais de 7,7 mil enfermeiros, técnicos e auxiliares. Desses, 47,7% relataram ter sofrido violência mais de uma vez nos últimos três anos.
Os números cresceram em relação a 2023. As agressões físicas aumentaram 2,2%. A violência sexual subiu 2,1%. O conselho admite subnotificação e acredita que os casos reais são maiores.
Causas apontadas pelos agressores
Pacientes e acompanhantes são os principais autores das agressões. A demora no atendimento aparece como motivação em 65,5% dos casos. Problemas na estrutura da instituição somam 55,3%. A insatisfação com a assistência prestada representa 46,8%.
O presidente do Coren-SP, Sérgio Cleto, afirmou que a maioria das reclamações não é sobre a assistência dos profissionais. Segundo ele, as queixas são sobre questões que competem à instituição. Cleto citou o déficit de profissionais e a falta de equipamentos como fatores que atrasam o atendimento. Ele ressaltou que esses problemas não são responsabilidade dos trabalhadores e não justificam ataques.
Os enfermeiros ficam na linha de frente do conflito. Eles são responsáveis pela classificação de risco dos pacientes. Essa triagem define a ordem dos atendimentos pela gravidade do caso, não pela ordem de chegada. A falta de compreensão desse processo é apontada como uma das principais causas da violência.
Tipos de agressão e denúncias
As agressões verbais representam 88,8% dos casos. A violência psicológica soma 78,7%. A violência física aparece em 21,1% das ocorrências. Apesar dos números, 70% dos profissionais nunca fizeram denúncia formal. A maioria cita a sensação de impunidade ou a falta de apoio da instituição.
Um projeto de lei estadual tenta mudar esse cenário. O PL 1254/2025 será discutido em audiência pública na próxima terça-feira, dia 4. A proposta cria um protocolo para prevenir e combater a violência contra a enfermagem. O texto prevê medidas de prevenção, registro, acolhimento e resposta a episódios na rede pública.
Saúde mental dos profissionais
Veiga voltou ao trabalho após receber alta. Ele prefere ficar longe do atendimento ao público. Agora, atua na esterilização de equipamentos em outro hospital. O caso dele ilustra as consequências físicas e emocionais da violência no trabalho.
Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (Smartlab) mostram que mais de 500 mil pessoas se afastaram por motivos de saúde mental em 2025. Os técnicos de enfermagem ocupam a 6ª posição entre as profissões mais afetadas. Foram mais de 44 mil afastamentos na categoria no ano passado. Os auxiliares de enfermagem aparecem na 18ª posição do ranking.
Cleto afirmou que muitos trabalhadores não conseguem esquecer os episódios de violência. Segundo ele, alguns permanecem afastados até hoje.

