Recondicionamento de marcapassos pode ajudara a salvar vidas em países em desenvolvimento, segundo um estudo da Universidade de Michigan. Dispositivos usados e renovados podem aumentar o acesso a esse tratamento em locais onde muitas pessoas não têm condições financeiras.
Pesquisadores do Centro Cardiovascular Frankel da U-M publicaram suas descobertas em um evento importante da American Heart Association, em 2024. O estudo envolveu quase 300 pessoas de sete países, incluindo nações da África, América do Norte e América do Sul.
Os investigadores compararam a função e a segurança dos marcapassos recondicionados com os novos. Os pacientes foram divididos aleatoriamente entre os dois grupos para testar qual dispositivo funcionava melhor. Os resultados mostraram que não houve diferenças significativas na função do marcapasso até 90 dias após a implantação.
Das pessoas que participaram, apenas cinco desenvolveram infecções locais no local da cirurgia. Dessas, três tinham recebido os marcapassos novos, mostrando que o problema não estava relacionado à origem do dispositivo. Além disso, três mortes ocorreram entre os pacientes com os marcapassos recondicionados, mas nenhuma delas estava ligada ao procedimento.
O principal pesquisador, Thomas C. Crawford, um especialista em eletrofisiologia cardíaca, comentou que os resultados preliminares são promissores. Ele acredita que isso pode facilitar uma doação em larga escala de marcapassos, ajudando muitos ao redor do mundo.
Atualmente, nos Estados Unidos, a terapia com marcapasso não é acessível a todos, especialmente em países com menos recursos. Uma estimativa aponta que centenas de milhares de pessoas morrem anualmente por falta desse dispositivo, sendo preocupante que a maioria esteja em países em desenvolvimento.
Embora implantar um marcapasso recondicionado não seja legal nos Estados Unidos, a FDA permite que dispositivos renovados sejam exportados. O programa “My Heart Your Heart” começou em 2010, com o objetivo de enviar marcapassos recondicionados para casos em que não há outra alternativa de tratamento para problemas cardíacos graves.
Esses dispositivos vêm de pessoas falecidas ou de pacientes que precisam trocar seus marcapassos por modelos mais avançados. A equipe da U-M faz uma triagem nos dispositivos reciclados, recondicionando apenas os que ainda têm mais de quatro anos de vida útil da bateria.
Os marcapassos são reprocessados em um laboratório em parceria com a World Medical Relief, em Southfield, Michigan. Outra empresa, a Northeast Scientific, realiza a reesterilização gratuitamente em Connecticut. A maioria dos dispositivos vem da empresa Implant Recycling, que trabalha com indústrias de cremação e cemitérios.
Com doações de casas funerárias de todos os 50 estados americanos, o programa já tem mais de uma década de trabalho. O médico Kim A. Eagle, coautor do estudo e um dos fundadores do programa, explicou que eles começaram estudando as crenças e atitudes de pacientes, familiares e médicos.
A equipe analisou todo o processo de extração do dispositivo, a análise da sua funcionalidade, a esterilização, o empacotamento e o acompanhamento após a implantação. Todo esse trabalho resultou em um “mapa” publicado, que pode servir de base para outros centros e parceiros que queiram se juntar a essa causa.
A equipe continuará a acompanhar os participantes do estudo para verificar a segurança e a eficácia a longo prazo dos marcapassos reciclados. O tempo de vida dos novos marcapassos geralmente ultrapassa 10 anos, e isso pode variar dependendo do uso do paciente.
Crawford afirmou que é fundamental que continuem com essa pesquisa. Eles precisam entender a melhor maneira de diminuir a falta de acesso a marcapassos que salvam vidas. As primeiras avaliações em três meses são encorajadoras, mas os resultados em seis e doze meses serão essenciais.
O trabalho desta pesquisa conta com o apoio do Centro Cardiovascular Frankel, de pacientes agradecidos e de diversas fundações que colaboram com o projeto. A doação de marcapassos é uma forma de ajudar aqueles que mais precisam.

