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Circuito cerebral que reforça o vício em álcool

Cientistas mapearam um circuito no cérebro que sustenta o consumo compulsivo de álcool. Veja o que a descoberta pode significar para o tratamento da dependência

Juliana Moraes5 min de leitura
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O que leva alguém a continuar bebendo álcool, mesmo sabendo que isso pode prejudicar a saúde, os relacionamentos e o bem-estar? Um novo estudo feito pela Scripps Research apresenta uma pista importante: uma pequena região do cérebro está relacionada ao aprendizado de continuar bebendo para evitar o estresse e a angústia da abstinência.

Na pesquisa, publicada na Biological Psychiatry: Global Open Science no dia 5 de agosto de 2025, a equipe da Scripps focou em um grupo de células cerebrais no núcleo paraventricular do tálamo (PVT) de ratos. Eles descobriram que essa área se ativa quando os ratos aprendem a ligar estímulos ambientais ao alívio dos sintomas de abstinência que o álcool proporciona. Esse caminho cerebral ajuda a entender um dos aspectos mais desafiadores da dependência — beber não por prazer, mas para escapar da dor — e pode levar a novas formas de tratar distúrbios do uso de substâncias e comportamentos problemáticos, como ansiedade.

“O que torna a dependência tão difícil de superar é que as pessoas não estão apenas em busca de uma sensação boa,” afirma Friedbert Weiss, professor de neurociência na Scripps. “Elas também tentam eliminar estados negativos, como o estresse e a ansiedade provocados pela abstinência. Este trabalho aponta os sistemas cerebrais responsáveis por esse aprendizado e explica por que a recaída pode ser tão persistente.”

“Essa região do cérebro acendeu a luz em todos os ratos que passaram pela experiência de abstinência,” comenta Hermina Nedelescu, co-autora do estudo. “Isso mostra quais circuitos são ativados quando o cérebro relaciona o álcool ao alívio do estresse — e isso pode mudar nosso entendimento sobre as recaídas.”

Do comportamento aos mapas cerebrais

Nos Estados Unidos, estima-se que 14,5 milhões de pessoas tenham algum tipo de transtorno relacionado ao uso de álcool, que engloba várias comportamentos de consumo prejudicial. A dependência de álcool é marcada por ciclos de abstinência, abstinência e recaída, assim como outras dependências químicas.

Em 2022, Weiss e Nedelescu usaram ratos para investigar as diferentes formas de aprendizado do cérebro durante esse ciclo. Quando os ratos começam a beber, inicialmente aprendem a associar o álcool ao prazer e passam a buscá-lo mais. Porém, essa conexão se fortalece durante as sóis de abstinência e recaída.

Após perceberem que o álcool alivia as sensações desagradáveis da abstinência, os animais se tornam cada vez mais determinados a buscar álcool, mesmo quando a situação se torna desconfortável.

“Quando os ratos aprendem a juntar os estímulos ambientais com a sensação de alívio, isso gera uma vontade muito forte de procurar o álcool quando estão nesse ambiente — mesmo que essa busca implique uma dificuldade,” afirma Weiss. “Ou seja, esses ratos buscam álcool mesmo quando há punição.”

No trabalho recente, a equipe queria descobrir exatamente quais redes de células no cérebro são responsáveis por essa associação entre estímulos e alívio do estado negativo.

Os pesquisadores usaram ferramentas avançadas de imagem para escanear o cérebro dos ratos, célula por célula, e identificar as áreas que se tornaram mais ativas com os estímulos relacionados ao álcool. Eles compararam quatro grupos de ratos: os que passaram pela abstinência e aprenderam que o álcool alivia o estado negativo, e três grupos de controle que não passaram por isso.

Embora várias partes do cérebro tenham mostrado atividade aumentada nos ratos que aprenderam sobre a abstinência, uma se destacou: o PVT, conhecido por sua função em estresse e ansiedade.

“Vendo agora, faz sentido,” diz Nedelescu. “Os efeitos desagradáveis da abstinência do álcool estão profundamente ligados ao estresse, e o álcool traz alívio daquela situação estressante.”

Os pesquisadores teorizam que esse estado negativo e a ativação do PVT são fundamentais para entender como o cérebro aprende e mantém a dependência.

Uma melhor compreensão da dependência

As descobertas desse estudo têm implicações além do álcool. Os estímulos ambientais condicionados ao reforço negativo — a motivação para agir a fim de escapar da dor ou estresse — são características universais do cérebro e influenciam o comportamento humano, além de distúrbios de uso de substâncias, como transtornos de ansiedade e aprendizado por medo.

“Esse trabalho pode ser aplicado não apenas à dependência de álcool, mas também a outros transtornos nos quais as pessoas se encontram presas em ciclos prejudiciais,” diz Nedelescu.

Pesquisas futuras vão aprofundar ainda mais. Nedelescu e sua equipe na Scripps pretendem expandir o estudo para incluir fêmeas e investigar os neuroquímicos que são liberados no PVT quando os sujeitos encontram ambientes associados ao alívio do estado negativo. Se eles conseguirem identificar as moléculas envolvidas, isso pode abrir novas possibilidades no desenvolvimento de medicamentos focados nessas substâncias.

Por ora, esse novo estudo salienta uma mudança importante na forma como os cientistas básicos enxergam a dependência.

“Como psicólogos, sempre soubemos que a dependência não se trata apenas de buscar prazer — é sobre escapar de estados negativos,” explica Weiss. “Esse estudo nos mostra onde no cérebro esse aprendizado se estabelece, o que é um avanço significativo.”

Além de Weiss e Nedelescu, os autores do estudo intitulado “Recrutamento de Populações Neuronais no Tálamo Paraventricular de Ratos em Busca de Álcool com Experiência de Aprendizado Relacionada à Abstinência” incluem Elias Meamari, Nami Rajaei, Alexus Grey, Ryan Bullard e Nobuyoshi Suto da Scripps; e Nathan O’Connor da MBF Bioscience.

Esse trabalho recebeu apoio financeiro dos Institutos Nacionais de Saúde (Ruth L. Kirschstein Institutional National Research Service Award T32AA007456, K01 DA054449, R01 AA027555 e R01 AA023183).

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Sobre o autor

Juliana Moraes

Equipe editorial do Cirurgia Coração, o maior diretório de estabelecimentos do cardiologia no Brasil. Conteúdo especializado sobre saúde do coração.

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